Je ne sais quoi

   A madrugada não dorme. Me pergunto quem eu seria se minha alma não padecesse tanto, se eu não desaparecesse da vida das pessoas, mas não tenho respostas. Meus bolsos estão pesados de acumular tristezas. Tenho uma fenda incosturável no peito e incontroláveis são minhas mãos na sua ausência. Eu tremo. Um tremor doente e pálido. Um tremor cheirando a vômito e adeus, com gosto de sangue escorrendo do nariz.
   Eu vigio a madrugada. Estou presa dentro dos meus próprios labirintos e meus olhos dançam no escuro procurando saída. Não tem. Essas linhas não têm salvação. Os dias longos maltratam e a noite não descansa. Os olhos piscam lentos e sem norte.
   Eu apanho da madrugada, mas amanheço com hematomas menos doídos que o som abafado da tua voz trêmula. As madrugadas, menos hipnóticas que teus olhos sem expressão, tem os traços precisos da tua caneta desenhando minha fragilidade secreta pro mundo. Quando a lua banhar meu portão, vou rezar pra que ela lave essa dor pros bueiros tão fedidos quanto a covardia que eu visto.
   A madrugada não cansa. Parece semente pronta pra crescer regada por lágrimas frias. É no barulho absurdo do silêncio dessa madrugada, que vou sentindo minha alma longe, longe do meu próprio corpo.

Às vezes algo precisa morrer pra que outro algo possa nascer.

Comentários

  1. Muito bem
    Texto muito intenso mas com muitas nuances verdadeiras...Adorei,
    Beijo e uma excelente semana.~

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  2. Ai ai

    Tem momentos que a tristeza parece que nunca vai passar =/

    bjokas =)

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  3. Um texto demasiado triste, mas muito bem escrito, tudo isto faz parte da vida.
    Gostei de ler!

    Uma semana feliz
    Hoje o poema é do nosso amigo Gil António...Convido-vos a visitar-nos... Obrigada
    Beijinhos-http://quadrasepensamentos.blogspot.pt/

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  4. Toda forma,
    toda cor,
    significa um sentimento....


    beijo

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  5. Lindo texto *-* Triste , mais faz parte da vida.
    Bjnhs

    http://karoline-o-meu-melhor.blogspot.com/2015/10/mundo-paralelo.html

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  6. Olá, Simone!

    É a primeira vez que visualizo seu blog, e seus textos, prosa ou poesia, são de elevada qualidade.
    Você sabe escrever e sabe como escreve.
    Quase todos os seus escritos são pesarosos, tristes e narram um amor que terminou, mas, minha querida, o mundo está continuando e pulsando.

    Se é ficção, então, você tem mesmo jeito pra esse tipo de textos. Se é realidade, saia dessa, a toda a pressa.

    Beijos e dias felizes.

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  7. Nossa que intensidade! E as figurações e metáforas muito bem pintadas, fazendo o leitor sentir a agonia dessa noite. Adorei!
    beijos.

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  8. Nossa que intensidade! E as figurações e metáforas muito bem pintadas, fazendo o leitor sentir a agonia dessa noite. Adorei!
    beijos.

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  9. Talvez ‘covardia’ seja a palavra mais forte e mais significativa entre todas as palavras fortes e significativas desse belíssimo poema! Amamos covardemente, sustentamos o insustentável covardemente, sofremos covardemente. Não temos a coragem de dizer: ele(a) nunca me amou, ele(a) me usou, ele(a) me enganou... Só a covardia justifica não vivermos a vida e continuarmos apanhando de quem nos fere a alma. Nossas madrugadas são um totem erguido ao ‘amor’ devorador. Brilhante poema, brilhante enfoque! Beijossssssssssss

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