terça-feira, 25 de agosto de 2015

Inexistência

Ele morreu
Nas minhas linhas
[de expressão]
e tristeza 
Ele não respira mais

Ele se afogou na profundidade
Desses olhos exaustos
E prolixos
E não vive mais
Ele morreu

E eu, que nunca fui inteira
Me despedacei mais
E me varri pra debaixo
do tapete
Te amar foi uma devoção cruel

Dois cacos de corpos vazios
Três noites sem dormir
minto, são duas
E uma lua abraçando
ninguém


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Túmulo e flores

    A cor da lua ainda é a mesma de quando você me deixou. Não havia sinal de que choveria, mas meu coração desaguou nessa madrugada de quinta muito mais do que um inverno inteiro.
    O batom vermelho na boca de uma moça triste.
    Os olhos molhados e incrédulos fitando o escuro do quarto abafado por gemidos ofegantes demais.
    A alma aflita no corpo anestesiado, tem gosto de massacre.
   Eu vou desaparecer miseravelmente na lembrança dos teus lábios ingênuos e ferir minha esperança vestida de abandono e despida de paz por pura tentativa de sobrevivência.
   O silêncio dessa casa chega a arder e essa fragilidade pálida ficará na cama até que eu volte de mais um dia tempestuoso e confuso e à noite, morra novamente. É duro manter as aparências.
   Você me deixou com café e papéis junto das palavras que tremeram com o barulho da porta fechando e minha própria voz era um conta-gotas lentíssimo e irritante balbuciando interrogações desbotadas.
   É perturbador o som do adeus e sinto que os espinhos crescem a cada minuto nesse coração tão pesado e ordinário como um pêndulo sem ritmo. Minhas orações não atenuam a tristeza dessas horas incompletas, anseio desabotoar a alma, só pra ter a sensação de que o vento vai escrever onde eu posso pisar firme, mesmo com a cegueira que ficou abraçada às lágrimas.
    O derradeiro olhar no espelho, não disfarça o que as pessoas não conseguem enxergar aqui, nem diminui o peso do medo dessa vida efêmera, enferma e fadada a me despedir.
 Sou um espelho quebrado. Um túmulo não visitado. Sem flores.