segunda-feira, 22 de junho de 2015

Ela vai embora

   Ela sentia o calor do fogo ardendo em seu rosto, mas não conseguia mover-se. Quem sabe sairia purificada e sem o peso dessa vida inteira em 24 atos banais. Agora, as promessas de criança pareciam tão enterradas quanto seus pés omissos e sem vaidades na areia fria e branca do quintal e já não acreditava na possibilidade de salvação para os dias pesados demais para as suas costas covardes. Sua coleção de mentiras crescia a cada tudo bem proferido, mas os olhos pálidos denunciavam que sofria por não saber fingir.
   Era o caminho errado das pessoas.
 Naquela noite, as estrelas conseguiram uma porção de lágrimas coloridas com sentimentos abruptos e tanta gente ao redor não significava companhia. Quis se aconchegar ao céu, como se fosse um grande cobertor, na tentativa de aquecer sua alma antiga e cheia de rugas doloridas, mas quando a boa e velha tristeza a olhou compadecida, ela estremeceu o corpo inteiro, sentindo-se desapaixonada ultimamente, pois seus suspiros eram pura resignação.
   A vida seguia acumuladora de sombras passageiras e não é de hoje que o escuro blinda a luz que quer despontar, o desapontamento é maior ao fim do dia, a noite aponta seus desejos vãos e seu som silencioso não a acalma.


Seus olhos exaustos não mentem.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Tragam flores

O dia amanheceu incerto
Entardeci num céu lilás
Imaginando a humanidade
cinza 
E a cor dos teus olhos 
Carregados de adeus.

A voz muda que corta
A madrugada 
Me olha 
torto
Entre um desejo e outro
Foi a vida que nasceu incerta

A despedida como uma
flor carnívora
me mastiga devagar

Colhe essa flor da minha pele
que está banhada de suor
Leva as gaiolas vazias
porque os pássaros
já foram embora.