domingo, 24 de maio de 2015

Ele despetala as minhas flores

    Em meio a tantas luzes e fumaça, eu o via dançar.
   Se não o conhecesse bem, diria que era a dança da tristeza e ele queria morrer tanto quanto eu.
   Minha confusão quer beijar seus movimentos e pedir que o tempo crave sua paixão naquela cena.
   O olhar dele guarda constelações e anseio provar com a ponta da língua esse céu que não é capaz de me salvar. Eu me rendo e quero misturar essas lágrimas vencidas ao salgado da sua pele, porque não aprendi fingir, porque a mudez gritante da minha alma vendida a preço nenhum esbarra nessas pessoas todas e agora dá as mãos à tristeza de Van Gogh.
   Ele aperta o nó da minha garganta, sem imaginar que ainda rabisco os calendários, que abraço o seu perfume pelas ruas, que ando na chuva lembrando que as promessas murcharam junto com as flores do vaso sobre o criado-mudo. Em meio às luzes e fumaça eu bebi devagar e balbuciei seu nome baixo sem me acostumar com a distância entre seus olhos e os meus, ou compreender que vê-los me fere ainda mais.
   Não esperei que o relógio me avisasse a hora de dizer adeus de novo, admito mais um fracasso da vida dura desse coração cansado e vou embora, imaginando que esse mofo nada mais é que a saudade tomando espaço, zombando baixinho, rasgando a carne da alma. Temo que a lua prateada não mais banhe de luz meu portão e minha pequenez que é enorme.

A saudade me lembra que o tremor que sinto é vestígio de despedida, de fuga.