Um ainda-amor

   O telefone tocou. Ela, afundada na poltrona que economizara tanto pra comprar, não se mexeu. Olhava pro nada. O volume do celular foi aumentando e a despertou de seus vagos pensamentos. Viu, com uma expressão esquisita, a foto dele na tela, imaginando que a ligação já estava perto de ir pra caixa de mensagens. Não atendeu. A música parou. 
   'Covarde', pensou. 'Tudo bem, talvez ele ligue de novo'. 
   As horas foram passando e o domingo, indo embora. Inclinou a poltrona um pouco para trás e fechou os olhos. Queria pintar a casa, mudar os móveis de lugar, comprar mais um ou dois livros. Sentiu uma espécie de vazio e riu alto. Um riso irônico, meio triste, meio 'e daí, essa é  a minha vida!' Foi até a geladeira, abriu uma garrafinha e encostou-se no balcão da cozinha, olhando o celular lá na sala. 
   Bebeu tudo. 
   Com passos lentíssimos, caminhou e discou o número que ainda sabia de cor. Uma chamada. E não fazia ideia do que diria. Duas chamadas. Três. "O que estava fazendo?' E se apressou em desligar.

   -Alô?
   - Oi. Desculpa não ter te atendido. Eu estava ocupada. 
[silêncio] 
   A vida anda tão agitada, você sabe, não? Quase não tenho tido tempo pra nada... 
[silêncio] 
   As papoulas que plantamos estão lindas... estão mesmo... 
[silêncio]
  Sabe, tenho sentido falta de você. Sempre. Não é às vezes, ou quase sempre. É mesmo todo o tempo. Aliás, sinto saudade de tudo, quando tudo ainda era nós. Parece que apesar do que ficou pelo caminho, o que ficou dentro de mim ainda continua vivo, como se ao invés de acabar, diminuir, sei lá, fosse se alimentando do que a gente viveu e só crescesse mais. 
[silêncio] 
   Eu sei, é a primeira vez que a gente se fala depois de tudo e eu já vou falando do que já passou, não é? Desculpa, é que por tanto tempo eu tenho guardado esse ainda-amor aqui dentro, que acaba transbordando de vez em quando. 
   Teamo. 
   Amo sim. E amo tanto...
[silêncio] 
   Fala alguma coisa. 
[silêncio]
   Você tá aí? 
[silêncio] 
   Alô?

Ela olhou o celular e viu, com uma surpresa absurda, que estava falando sozinha. Mexeu no histórico de chamadas e viu que a ligação havia durado 5 seguundos. 
'Pode ser que ele só queria ouvir minha voz', pensou. 
Largou o telefone em cima da mesinha de centro e foi fazer um sanduíche. Comer lhe acalmava. 
'Às vezes, falta coragem... existe amor... mas falta coragem'...

 


Comentários

  1. O amor devia ser uma boa fonte de coragem... Sei lá, toda vez que senti isso tive que ir fazer o que o sentimento mandava fazer... E sempre consegui, na medida do impossível ^^

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  2. ..olá!...não é nem falta de coragem, é muita paciência...para transformar um quase para todo "amor"...rs
    Bom final de semana!
    BYE!

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  3. É as vezes tem tanto amor pra dar, mas a falta de coragem paraliza!
    Beijos, ótimo fim de semana!

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  4. Ainda amor.. ainda..
    Parece que tem data e hora pra acabar, mas não acaba.. ou acaba, mas demora tanto que, quando acaba mesmo, a gente nem percebe.. isso de ambos os lados..

    .. mas é melhor que não acabe, pois cedo ou tarde, gera a coragem necessária para dizer "Alô!"

    Bjuus querida!!

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  5. Perdeu mais quem não ouviu essa declaração linda, isso sim.

    Beijos, querida.

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  6. (...)'Às vezes, falta coragem... existe amor... mas falta coragem'...

    Liiiiindo Simone, lindo lindo lindo mesmo, não consigo nem expressar o tanto que gostei, me vi em algumas partes do texto, e me vi mais ainda nessa última frase, senti ela inteira!

    Parabéns

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